11 outubro 2010

A erva do Diabo

 ATENÇÂO

Tanto para não ter que enfrentar estúpidas acusações, e na esperança que Google não encontre outro fantasmagórico spam e decida desactivar novamente este blog:

realçamos que o assunto cannabis é aqui tratado na acepção económica e que o seguente artigo não constitui  incitação ao uso de substâncias estupefacientes.

Pode parecer uma declaração supérflua, mas há cada cromo...


Milénios de produtiva convivência

Ao ouvir falar de cannabis hoje a maioria das pessoas pensa logo em cenas dantescas: drogados, violências, crimes, orgias, jovens vidas destruídas, morte, etc.
Ao procurar o termo cannabis no Wikipedia, por exemplo, deparamos com uma página metade da qual é dedicada à planta como droga. Um final muito triste para um produto natural que ao longo dos milénios encontrou uma excepcional variedade de usos.
Mas é normal que assim seja: este é o resultado de 80 anos de lavagem cerebral.

Foi certamente uma das primeiras plantas cultivadas pelo homem e admitindo que a sua área de origem fosse na Ásia Central, a cannabis foi transportada já em tempos antigos para o leste (China), oeste (Afeganistão, Paquistão, Irão, Arábia Saudita, Grécia, Roma, Europa Central ) e Sul (Índia).



O seu uso como fibra para cordas e depois para os têxteis, e como alimento (sementes e sementes oleaginosas) parece muito mais velho do que a descoberta das propriedades psicoactivas.
Os mais antigos achados arqueológicos provêm da China (Taiwan): são resíduos de cordas que remontam, pelo menos, a 10.000 anos atrás. Outros restos, encontrados no Turquestão, remontam a 3.000 a.C.

O uso das cordas feitas com cannabis em vez das fracas cordas de fibra de bambu foi um grande passo em frente.
Os tecidos de cannabis eram muito valiosos, e foram usados como roupas para os mortos.
Também o papel, que foi inventado na China por volta do século I a.C., foi originalmente obtido a partir da cannabis.

As fibras de cannabis foram um produto importante desde os tempos antigos, e só recentemente têm sido largamente suplantadas pelas fibras sintéticas. Durante séculos, tecidos e cordas resistentes foram feitas apenas de cannabis.

Em África, além de ser usada como base para uma bebida alcoólica, tornou-se parte de muitos sistemas tradicionais de medicina: entre os bosquímanos e hotentotes é ainda usada durante o parto, para aplicação tópica em feridas ou picadas de cobra.

A importância é tal que a difusão da cannabis não conhece pausas: os Espanhóis introduzem a planta no Chile, no México e no Peru por volta do 1545. Os Portugueses fazem o mesmo no Brasil e os Britânicos na América do Norte (Canadá 1606, Virgínia 1611, Nova Inglaterra 1630). Em 1762, em Virgínia, é obrigatório para os agricultores cultivar também cannabis, caso contrário há multas pesadas. O mesmo George Washington menciona as plantações nas próprias cartas.

Ford Modelo T
Até 1937 (o ano da proibição nos Estado Unidos), a cannabis é um dos muitos medicamentos da Europa e EUA, que, como todos os outros medicamentos, são vendidos nas farmácias. Os principais usos são como analgésico, sonífero, sedativo, estimulante do apetite, mas também tem indicações específicas para neuralgia, cólera, convulsões, espasmos musculares, reumatismo, tétano, hidrofobia, histeria, depressão mental, delirium tremens, demência, sangramento uterino .

A Ford T, o mítico modelo de viatura que motorizou os Estados Unidos, era construída inteiramente em cannabis e podia utilizar como combustível derivados da mesma planta. O primeiro (único até hoje) carro 100% ecológico.

Assim: cordas, roupas, papel, carros, móveis, comida, combustíveis, medicamentos...
Então, porquê desapareceu?

O grande problema da cannabis

Porque a cannabis tem um grave problema: praticamente não tem custos, cada pessoa pode cultivar cannabis (cresce desde o Equador até a Escandinávia), não existem dificuldades. E esta é a dificuldade.

Nos anos '20 e '30, os nascentes grupos industriais americanos apostavam principalmente na exploração do petróleo para a energia (Standard Oil - Rockefeller), dos recursos florestais para o papel (editora Hearst), e das fibras artificiais para o vestuário (Dupont), todas áreas em que tinham sido investidas grandes somas de dinheiro. Mas todos enfrentavam, cada um no próprio terreno, este poderoso adversário: a cannabis. Então juntaram-se para vence-la.

A única solução para derrotar um gigante desse tamanho foi encontrada na ilegalidade. Começou assim uma operação mediática de demonização, rápida, abrangente e eficaz ("a droga do diabo", "erva maldita", etc.), suportada pelos jornais (muitos dos quais nas mãos de Hearst), rádio e filmes: na imagem ao lado o cartaz do filme "A cannabis: assassino da juventude - Uma festa, uma tragédia ").

Assim delirava Harry Anslinger J., Comissário do Departamento de Narcóticos dos Estados Unidos na década dos anos 30: 
Quantos assassinatos, suicídios, roubos, assaltos criminosos, furtos e actos de insanidade provoca a cada ano, podemos apenas imaginar. Ninguém sabe, se pôr nos lábios duma pessoa um cigarro de cannabis fará dela um visitante feliz de paraísos musicais, um louco delirante, um tranquilo pensador ou um assassino ...

A condenação moral viajava rápida de costa a costa (não havia Informação Incorrecta na altura!), e cedo foi possível fazer aprovar uma lei para extinguir o uso da cannabis.

Assim, a partir de então, Dupont inundou o mercado com as suas fibras sintéticas (nylon, teflon, Lycra, Kevlar, são todas as marcas originais Dupont), o mercado automóvel dirigiu-se ao uso da gasolina (o primeiro motor construído pelo Eng. Diesel trabalhava com combustível vegetal), e Hearst começou a destruição sistemática das florestas da América do Sul.

Lotus Eco Elise: carro em cannabis
E hoje as multinacionais, que influenciam fortemente todos os principais governos ocidentais, são os descendentes directos da histórica aliança anti-cannabis, nascida entre as grandes famílias industriais. E assim fica também claro porque, apesar dos resultados positivos nas pesquisas, a cannabis não é legalizada nem para uso médico.

Como um produto têxtil, a cannabis é quase quatro vezes mais macia do que o algodão, quatro vezes mais quente, tem três vezes a resistência ao rasgo, dura infinitamente mais e não requer pesticidas para crescer. Como combustível custa cerca de um quinto da gasolina, e como suporte para a imprensa cerca de um décimo.

E a droga?

E o problema da droga? Ao legalizar a cannabis para usos industriais ou terapêuticos não há o risco de transformar os jovens em toxicodependentes?

Não é esta a sede mais idónea para tratar deste assunto que, ao contrário, requer atentas análises. Este é um blog essencialmente de economia.
Mas deixamos algumas constatações e uma pergunta:

Constatações:
  • No Brasil 16 milhões de pessoas sofrem de alcoolismo; este consumo é a terceira causa de absentismo no trabalho, o que compromete quase 5% do Produto Interno Bruto - PIB. 
  • Mais de 1.000 brasileiros morrem, por ano, vítimas de acidentes causados por excesso de álcool e cerca de 10% de todos os acidentes com vítimas, resultam de conduzir com excesso de álcool no sangue.
  • Em Portugal os dependentes do álcool são1,7 milhões.
  • O consumo abusivo de álcool é o terceiro factor de risco para problemas de saúde e morte prematura no mundo, com 2,5 milhões de pessoas a morrer anualmente, informa a Organização Mundial da Saúde.   

Pergunta:
  • alguém ouviu falar de proibir a uva?

    Ipse dixit

    Fontes: Wikipedia, Luogocomune, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Alcoolismo Tratamento

    1 comentário:

    1. NunoSav12.10.10

      http://www.youtube.com/watch?v=fYLMGX7CIl4

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