31 julho 2013

O dinheiro, o Estado, a História - Parte I

O Leitor está de férias, deitado ao sol com o tablet na mão? Eis um artigo aborrecido, justo para estragar-lhe o dia. (No Brasil é Inverno, por isso o dia já está estragado).

Falemos de ouro, de moedas e de Estados (eu bem disse que era aborrecido...).

Já vimos como muitas pessoas acham que o dinheiro seja um valor absoluto, mas assim não é. Por exemplo: qual o valor duma nota de 10 Euros (ou Dólares, tanto faz)? Mais ou menos 30 cêntimos: o custo do papel, da tinta e da impressão.

A nota em questão tem um valor relativo: é a sociedade que confere valor ao pedaço de papel, somos nós que aceitamos aquela nota como se tivesse o valor de 10 Euros. A nota em si (tinta, impressão, papel...) nem daria para pagar um café.

Já vimos também que nem sempre foi assim. Antigamente, o dinheiro era produzido com metais preciosos, o que conferia um valor "real" (nota: na verdade as coisas não eram tão simples nem na antiguidade, pois desde sempre os governantes tentaram alterar a efectiva percentagem de metais preciosos nas moedas com metais de aspecto parecido mas menos nobre. Mas isso agora não interesse, justo?): ao ter na mão uma moeda de ouro do valor de 10 Euros (que não existe), eu teria na mão não uma representação dos 10 Euros, mas 10 Euros em ouro efectivo.

Tudo claro até aqui? Sim, tudo claro.
E aqui o discurso se torna interessante.


O ouro e as crises

Por exemplo: a Inglaterra, após as guerras napoleónicas, voltou a utilizar as velhas moedas de ouro e prata. Como resultado, no período entre 1820-1840 sofreu uma série de graves depressões económicas, até que na Irlanda (na altura inglesa) havia fome e dois terços da população emigrou.

Pormenor curioso: tudo isso aconteceu enquanto o Reino Unido estava a inventar o motor de combustão interna, o motor a vapor para os processos industriais, no meio duma revolução científica e tecnológica que, em teoria, deveria ter favorecido a economia e o bem estar das famílias.

Como explicar isso?
Voltemos atrás.

Para combater Napoleão, o Reino Unido contraiu grandes dívidas com os bancos privados: e, uma vez acabada a guerra, os banqueiros queriam ser reembolsados em ouro e impuseram, de facto, as moedas produzidas com o metal amarelo. Isso teria feito também aumentar a valor do ouro e aumentado os lucros.

Problema: não há muito ouro. Aliás, o ouro é pouco (e nem a prata abunda). E se o ouro for pouco, também as moedas feitas de ouro são escassas.
Menos moedas = menos compras = economia em crise. Muito simples.

Felizmente, por volta do 1840, novas minas de prata foram descobertas, foram produzidas mais quantidades de dinheiro e a economia recuperou.
Mais dinheiro = mais compras = economia em recuperação. Também isso é simples.

Uma coisa semelhante aconteceu novamente entre 1876 e 1893, outra altura em que a moeda foi convertida em ouro e o metal era insuficiente. Na América usaram a prata, o que gerou mais dinheiro, claro; mas aí surgiu um grupo sound money ("moeda forte"), financiado por grandes bancos, com o fim de eliminar a prata e seguir o rumo da Inglaterra. Isso restringiu a quantidade de moeda em circulação até que William Jennings Bryan, do Partido Democrático, fez um dos discursos mais famosos da história moderna:
Vocês não crucificarão a humanidade numa cruz de ouro, vocês não vão colocar esta cruz de espinhos na cabeça de quem trabalha.
Pelos vistos, Bryan não tinha o dom de prever o futuro, mas isso serviu para lançar o alarme. Ao mesmo tempo, pouco depois de 1890, foram descobertas novas minas de ouro e a falta de dinheiro desapareceu.

No período 1920-1926, Winston Churchill decidiu voltar ao antigo sistema de ouro (e duma chamada "paridade alta", com dinheiro dependente do metal), o que criou uma nova recessão, tanto que o economista Keynes definiu o regresso de "relíquia bárbara".

Lentamente, a maioria dos Países abandonou este "sistema áureo" e aqueles que ficaram, como a França, chegaram à Segunda Guerra Mundial já esgotados.

O ouro, os bancos e as crises

É sempre a mesma história ao longo dos séculos, e ainda hoje assim é, tal como ontem: os bancos, os mega-fundos, as dinastias financeiras, querem ser pagos em moeda forte, que valha mais e, portanto, criam uma propaganda na qual estamos constantemente ameaçados pela inflação, mesmo com a economia em colapso diante dos nossos olhos. Evitam que a moeda ganhe valor e criam a depressão.

Na prática, comportam-se como se o Euro também fosse moeda de ouro, em quantidades limitadas, sempre à espera que seja encontrada uma mina de prata no Peru para ter mais dinheiro.

Veja-se o caso da Zona (N)Euro: o Banco Central Europeu e as Mentes Pensantes de Bruxelas, perante a falência de inteiras Nações (Grécia, Irlanda, Portugal...) fizeram o quê? Imprimiram mais dinheiro? Nem por isso: chamaram o Fundo Monetário Internacional.

Mas pelo menos antigamente era sempre possível encontrar ouro na Califórnia ou no Peru, um pouco de sorte e a economia voltava a funcionar.

Tudo isso não é sério e a razão é evidente: o Estado, por sua natureza, sempre criou dinheiro (a não ser num sistema com 100% de moeda convertível em ouro, mas este é outro discurso): em vez disso, UE e BCE actuam como se ainda estivéssemos em volta das moedas metálicas, como no século XIII, e nada é possível fazer a não ser retirar o dinheiro dos bolsos dos cidadãos (austeridade).

Claro: depois há um mega-empréstimo aos bancos com taxa de juros de 1%, mas isso é para os bancos, não para os comuns mortais.

Resultado óbvio: não há dinheiro suficiente, as economias colapsam, há pessoas que chegam a  suicidar-se. O Estado pede dinheiro, tem o monopólio (na Europa é o BCE) e recusa criar mais.

Um Estado impossível  

Mais uma vez (pois o assunto já foi tratado várias vezes), tudo gira em torno da superstição segundo a qual o Estado (ou o BCE na Europa) é o único que produz dinheiro e se ficar sem notas tem como única solução busca-las nos ordenados, nas reformas, nas poupanças dos cidadãos.

É falso? Sim, é redondamente falso: o Estado é o único que não tem problemas financeiros, e isso por definição. E percebe-lo é extremamente simples. Aliás, seria extremamente simples se nas escolas ensinassem também como funciona o nosso mundo. Mas assim não é, e continuamos a viver num mar de ignorância, obrigados a acreditar no vendedor de banha de cobra de turno. (existe a expressão "banha de cobra" no Brasil?)

Voltemos ao assunto principal. O Estado realmente precisa do nosso dinheiro, de poupar nas despesas segundo o lema: "tanto entra nos cofres, tanto sai"?

A resposta será encontrada na segunda parte deste artigo, publicada amanhã.

Mas, por enquanto, é possível reflectir acerca disso: o conceito de Estado existe desde o tempo dos egípcios e dos sumérios, mas o imposto sobre os rendimentos quase nunca existiu até a I Guerra Mundial, em nenhum País do mundo. Claro, houve excepções, mas não passavam disso: excepções. Então, como foi possível para o Estado sobreviver ao longo de milhares de anos sem taxar os rendimentos (ordenados, reformas...) dos cidadãos?


Ipse dixit.

10 comentários:

  1. Anónimo31.7.13

    Oi Max, achei que o Estado fossemos nós os cidadãos que o constituímos, e não suas máquinas e estruturas governamentais.

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  2. Anónimo31.7.13

    Olá, interessante. E o FED ou seja o centro da actual hiperinflácionada economia mundial? Ou seja emitir sem razão, ao gosto do freguês sem suporte a não ser o próprio e os famosos derivados(aberração no meu humilde ponto de vista, mas parece que dá para tudo, aliás os bens essênciais como o ar, agua, agricultura e piscicultura etc...boas apostas..). Não passa tudo de um mercado que é suportado por privados. Privados? Mas isto tem lógica? Até pergunto como é possível a nação mais poderosa do mundo pura e simplesmente deixar isto acontecer? E os outros jogam igual? Ou só têm que pagar? A ideia é que isto é um "jogo viciado" e quem paga somos nós(todos até os norte-americanos sem saber)
    Abraço
    Nuno

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  3. Anónimo31.7.13

    A coisa promete!
    É muito interessante analisarmos a questão do imposto sobre o rendimento e a sua origem.
    Venha a 2.ª parte.

    abraço
    Krowler

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  4. anonimo 561.8.13

    Os EUA podem imprimir á vontade, não fosse o Dólar a divisa de compra do petróleo (petrodolar).
    Enquanto assim for, a procura de dólares será sempre gigantesca, mantendo assim artificialmente a cotação do dólar.
    Por mais que o FED imprima em massa, a procura não cessa e a cotação mantém-se.
    Os EUA têm a moeda sobreavaliada + ou – em 40%.
    Ou seja, 40% do que importam é de borla.
    Mesmo assim estão como estão. Neo-Liberalismo no seu melhor.
    Enquanto essa elite Sionista radical, instalada no Sistema financeiro Mundial, controlando escandalosamente os vários governos e Presidentes dos EUA, destruindo os valores da cultura ocidental desde Hollywood, necessitar dos USA para seus propósitos inconfessáveis, assim continuará o Mundo.
    Mas a mentira e o ilusionismo mediático tudo encobre.
    As guerras e os assassínios de Chefes de Estado em defesa do Petrodólar perpetuam-se.
    O encobrimento de alternativas energéticas ao petróleo e nuclear, verdadeiramente eficazes, são bem conhecidos…
    E enquanto os cães ladram a caravana passa.

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  5. Reparei que o blog tinha falado muitas vezes das teorias de Keynes e do dinheiro "do nada" sem observar o que se passava na Antiguidade.

    Porque na verdade a criação de dinheiro sem cobertura áurea (ou de prata) não e coisa nova. Afinal Nixon, ao abolir o Gold Standard em 1971, não inventou nada: a China viveu milhares de anos com o mesmo sistema.

    Mas é importante reter a enorme diferença que distingui a sociedade ocidental: aqui, a criação de dinheiro "do nada" é feita também pelos bancos privados, o que permite um lucro imenso.

    Os bancos privados entraram na posse duma função do Estado, chegando até a substitui-lo por completo em alguns casos (veja-se o caso da Zona NEuro e o BCE).

    A coisa divertida é a seguinte: a sociedade aceita silenciosamente que os bancos criem dinheiro "do nada", mas fica doida perante um Keynes que afirma a mesma criação feita pelo Estado.

    Até o cidadão comum estranha o dinheiro "do nada", não entende e continua a viver numa condição de ignorância mantida propositadamente com a cumplicidade dos órgãos de informação.

    Abraços para todos!

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  6. anónimo 561.8.13

    Todos os Bancos centrais imprimem de acordo com as necessidades da economia, injecta-se moeda quando necessita investimento, faz parte da regulação das moedas, tal como a subida ou descida das taxas de juro, controlando-se assim a inflação.

    Quando são os Bancos a criar dinheiro, estão a enriquecer á custa de todos.

    Acrescentando meio litro de água a um litro de vinho, teremos agora litro e meio de vinho aguado.

    Este meio litro adicional, fica em grande parte em benefício dos bancos, que ainda por cima pagam quase metade de IRC das outras empresas e até já nos cobram por ter lá conta.

    Não é aos depositantes que roubam, é á economia.

    É um privilégio absurdo.

    Já aqui se demonstrou muito bem como funciona o sistema bancário/monetário fraccionário

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  7. Existe uma diferença substancial entre a criação de moeda por parte do Estado e dos bancos comerciais.

    Quando um banco empresta dinheiro, cria moeda. No futuro, exigirá o retorno do montante emprestado acrescido de um juro. Porém, o banco só empresta quando tem a expetativa que o devedor será mesmo capaz de cumprir a sua obrigação. Isto obriga o devedor a mostrar que tem um projeto viável (no caso de empresas) ou rendimentos futuros condizentes com o que o empréstimo exige; isto é, obriga o devedor a mostrar que tem capacidade para gerar valor suficiente na sociedade (rendimentos do capital ou trabalho) para suportar o empréstimo.
    Assim, apesar da criação colossal de moeda nestas últimas décadas, a inflação manteve-se baixa, pois a criação de moeda exigia por contrapartida uma expetativa de aumento do PIB.
    Pelo contrário, quando as expetativas são infundadas, assiste-se a uma galopagem nos preços, como se verificou na mais recente bolha imobiliária.

    Já no Estado esta expetativa não é necessária. Aos decisores num Estado com plena soberania monetária (sem bancos centrais independentes) nada acontece se os projetos que apresentam gerarem valor nulo ou negativo na sociedade. Em primeiro lugar, geralmente são projetos muito difíceis de avaliar. Em segundo lugar, mesmo havendo mecanismos de proteção do erário público, estes em geral são pouco eficazes devido à influência política no processo. Por último, políticas de expansão monetária desenfreada por parte do Estado são formas fáceis e populares de atenuar os verdadeiros problemas económicos de um país, exceto quando dão para o torto, algo infelizmente frequente.
    Tudo somado, impressão por parte do Estado, tem uma tendência notável para gerar níveis de inflação altos e para entrar em descontrolo.

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  8. anónimo 564.8.13

    Esse conceito está cheio de falácias.

    E existem alternativas ao sistema monetário vigente, só que ele beneficia aqueles que dominam o status-quo e por arrasto a opinião pública…

    Mas mesmo que assim não fosse, o privilégio que se dá aos bancos de multiplicar o seu capital á custa do valor criado por todos, é manifestamente absurdo.


    Eu diria até com algum humor e sem pretender ofender:

    “Enganem-me que eu gosto...”

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  9. Se refere que existem falácias no que escrevi, gostaria que as apontasse.

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  10. anónimo 564.8.13

    Caro Nemo, a sua exposição está correcta, mas não é a única, quando falo de falácia, falo do conceito em si de que os Bancos Centrais imprimirem seja tão prejudicial á saúde da economia.

    Há também quem defenda esse conceito, no sentido de defender o mecanismo do LTRO da UE.

    Do meu ponto de vista é um mecanismo perverso, que só beneficia a Banca e a especulação Financeira em desfavor das populações, que sendo os que menos culpa têm nas causas das crises económicas provocadas pela Finança Mundial e dos desvarios das criminosas gestões do Estado (como Portugal) ao serviço da Banca e alguns grupos económicos, são os que acabam por pagar com pobreza e miséria, enquanto que os culpados se beneficiam com os pagamentos de Juros acrescidos e aumento exponencial das dívidas.

    Por outro lado, que um Banco propriedade de privados, tenha o privilégio de criar dinheiro quando faz empréstimos, multiplicando o seu capital retirando-o de um valor que pertence a todos ( á economia ), não me parece um conceito que tenha grande defesa.

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