26 abril 2017

Blockchain, Ethereum e Bitcoin

A questão da eliminação do dinheiro vivo, substituído pelo electrónico, ocupa muitas páginas da informação alternativa: este blog tratou do assunto num par de ocasiões (ver "relacionados" no fundo do artigo).

O cerne da questão parece ser o controle que poderia ser actuado sobre os cidadãos (todos os cidadãos e todas as empresas) com uma forma de pagamento facilmente rastreável.

É um risco? Sim, é. Mas, paradoxalmente (e cada vez mais no futuro), pode tornar-se um risco secundário. Afinal, já hoje não é difícil saber como gastemos o nosso dinheiro, seja ele electrónico seja "real": declarações dos rendimentos, facturas, recibos, cartões... se um governo deseja saber o total das nossas entradas e os bens nos quais a maioria destas são gastas, não é impossível ter uma ideia com uma boa aproximação.

É claro que com o dinheiro inteiramente electrónico a tarefa ficaria ainda mais facilitada: mas, como afirmado, há riscos bem maiores do que isso. O perigo principal não é um maior rastreamento do cidadão.

Enquanto o Ocidente observa preocupado o resultado das eleições francesas, os vários JP Morgan Chase, Microsoft, Intel, Google, Santander, British Petroleum, UBS, Federal Reserve, Banco Central Europeu e companhia toda ocupam os seus recursos em algo bem mais importante. É uma simples questão de prioridades: e a prioridade, nesta altura, não é saber se irá ganhar Macron ou Le Pen, pois estes são pormenores. O que conta tem outros nomes: Blockchain, Ethereum e Bitcoin.

O que são estas coisas? Ohh, nada de importante: afinal estamos a falar de algo que irá mudar a face do planeta e condicionar a vida dos nosso filhos, dos filhos dos filhos e assim por adiante. Nada de grave, portanto, e é por esta razão que os órgãos de comunicação nem perdem tempo a tratar do assunto.

Para entender, antes breve resumo.

Hoje: as duas vias

Tudo o que o Leitor comprar hoje passa por duas vias:
  1. o dinheiro eletrónico, com cartões de crédito, de dívida, cheques, transferências bancárias, etc.
  2. o dinheiro vivo, que só é registrado na emissão (quando o Banco entrega o dinheiro ao Leitor) e, de consequência, nos arquivos do Banco Central.
O sistema 1 é facilmente rastreável, o sistema 2... também, mas de forma aproximada. E esta aproximação deixa descobertas algumas "zonas cinzentas", onde o dinheiro pode desaparecer e reaparecer.

Já foi falado em eliminar o dinheiro vivo por várias razões, por exemplo para que os Estados possam controlar os pagamentos e, desta forma, derrotar os negócios do crime, do tráfego da droga, das armas... e claro está: o terrorismo, que calha sempre bem nestes discursos.

Mas esta hipótese, como todas as consequências negativas que costumam ser apresentadas, fica ancorada à ideia de que exista um monopólio da moeda, um Banco Central que emite dinheiro apenas eletrónico, assim cada pagamento ficará registrado nos computadores, seja no caso da compra dum pacote de rebuçados, dum quilo de cocaína ou dum kalashnikov. Portanto, estamos a falar dum Estado (ou, em qualquer caso, duma entidade governamental), duma moeda electrónica regularmente emitida e da possibilidade dum total rastreamento.

Este é o ponto em que a maior parte da informação alternativa pára. E, nestes moldes, o maior dos problemas é mesmo o facto das despesas do cidadão serem totalmente rastreadas. Todavia, este é já o passado. É ontem. O hoje e, sobretudo, o amanhã, são coisas bem diferentes e muito mais perigosas.

Bitcoin e Blockchain

Um dia, um anónimo japonês inventa um novo tipo de dinheiro electrónico, chamado Bitcoin. Esta é
uma "pequena" revolução: é dinheiro eletrónico global, que pode ser emitido e trocado sem qualquer intervenção por parte das autoridades governamentais (nada de Bancos Centrais) e que nem pode ser rastreado.

O fenómeno Bitcoin já hoje é algo bem mais importante do que imaginado. Se até poucos anos atrás Bitcoin era o dinheiro dos traficantes colombianos, de outros azarados que vendiam explosivos para al-Nusra (por exemplo: Barack Obama. Ou acham mesmo que o explosivo C4 e as armas químicas são trocadas em Dólares?) ou dalguns raros investidores, as coisas agora estão a mudar: nos últimos tempos Bitcoin começou a atrair a atenção da grande finança. A razão?

A resposta não reside tanto no volume de negócios de Bitcoin (que ainda hoje continua a ser patético), nem na mesma moeda Bitcoin: a resposta fica no sistema de circulação e de pagamentos que apoiam Bitcoin. Senhores, abram as asas ao Blockchain.

Em teoria? Muito interessante

Em primeiro lugar: Blockchain é uma tecnologia. É um sistema distribuído globalmente de registros de pagamentos, em teoria disponível para todos. O ponto crucial é que este sistema de pagamentos, ao contrário dos vários Euro, Dólar, Real, Yuan, Libra, etc. não passa por uma autoridade central (como acontece no caso dos Bancos Centrais e das moedas antes mencionadas), mas passa por uma rede de computadores espalhados pelo planeta todo, nas mãos de... pois: de quem? Ops, eis um pormenor curioso. Mas vamos esquece-lo por enquanto: em frente.

Isto significa que qualquer pessoa que utiliza uma moeda digital como Bitcoin (ou a bem mais importante Ethereum), graças à tecnologia Blockchain fica livre daquelas gaiolas que são as moedas nacionais.

Segundo os apoiantes de Bitcoin e Ethereum, estas têm a vantagem de não estar nas mãos do poder de corruptos e criminosos (Greenspan, Bernanke, Draghi...) que podem manipular e ser manipulados em prol das malvadas corporações globais. Isso sem contar que a plataforma tecnológica Blockchain é muito mais rápida do que outros sistemas de pagamento tradicionais.

Sabe o Leitor daquela transferência bancária que demora três dias? Com Blockchain o número é sempre "três", só que aqui fala-se de minutos, não de dias. Além disso, dizem sempre os defensores de Blockchain, Bitcoin ou Ethereum são plataformas tecnológicas rastreáveis em qualquer lugar do mundo: a reciclagem torna-se um pesadelo.
Clicar para ampliar!



Em teoria tudo muito interessante, ora essa: uma espécie de revolução monetária, uma anarquia do dinheiro. E se o Leitor pensar "Tá bom, são aquelas coisas americanas que aqui vão chegar nos próximos 60 anos...", então está redondamente enganado. Blockchain é algo que existe, funciona já e nos próximos anos terá uma difusão exponencial. Sobretudo: implicará uma enorme mudança, a vários níveis. Ao ponto que a Autoridade Monetária Europeia avisa: querem utilizar o Blochchain? Tudo bem, mas lembrem que o risco é todo vosso.

E de facto é assim: Blockchain, e os seus servidores 10.000 vezes mais rápidos do que os tradicionais reguladores bancários, ainda não tem nenhuma regulamentação internacional. E aqui começam os problemas.

Blockchain é um prodígio informático, feito apenas de 200 linhas de código. É só isso. As pessoas trocam um valor eletrónico, visível para todos (em teoria), em computadores visíveis por todos (em teoria). O que significa isso? Significa que os bancos deixam de fazer sentido: tornam-se inúteis, ultrapassados. Simples então entender que Blockchain vai acabar com 500 anos de história dos bancos. E até aqui até haveria razões para festejar, sejamos honestos.

Mas surge uma dúvida, e legítima também: realmente achamos que os vários Goldman Sachs, Santander, UBS e companhia possam ficar parados enquanto o mundo deles vai desaparecer?
Óbvio que não.

E, de facto, parados não têm ficado. Enquanto Blockchain, Bitcoin e Ethereum estavam a ser desenvolvidos, os bancos tradicionais e Wall Street tiveram tempo para preparar-se. Hoje estão a abandonar Bitcoins para atirar-se ao recém nascido Ethereum, com plataformas open source (e sim, não são nada parvos...). Em breve teremos a regulamentação e a nossas vidas serão hiper-controladas: porque o problema não é pagar com o cartão de crédito hoje, o problema será pagar tudo com a nova moeda amanhã.


Um Ethereum nas mãos das instituições (privadas, como os bancos, ou públicas, como o Estado) significa que o Leitor pode gastar 50 cêntimos na compra dum pastilha elástica, pode dar a semanada ao filho, pode entrar numa farmácia para comprar uma embalagem de Viagra, pode comprar não um mas dois copos de cerveja, três comprimidos de ecstasy e tudo fica gravado. Tudo. A privacidade é pulverizada.

Amanhã: Ethereum?

O Leitor não se preocupa com a sua privacidade? Ok, que assim seja. Afinal é uma escolha.

Mas que  tal o seu dinheiro? Isso dói, não é?
Então imagine o sistema Blockchain nas mãos do Estado. Porque "Estado" significa também "tributação". Taxas e impostos, para falar de forma clara.

Um sistema como aquele descrito nas mãos duma entidade que tem como função taxar os cidadãos significa uma tributação cruel, que não deixa possibilidade de fuga: o Estado teria (e terá) o controle de cada centavo que o Leitor gasta. E tudo ficará gravado (em open source, por suprema ironia).

Mas o Blockchain nas mãos do Estado representará apenas uma passagem intermédia e temporária. A verdade é que a moeda inteiramente digital, gerida de forma descentralizada, abre cenários virtualmente sem limites. O objectivo final não é o dinheiro controlado pelo Estado mas uma moeda universal (e tanto Bitcoin agora quanto o Ethereum no futuro nascem já sem um Estado de referência) e privada (no sentido de não ser gerida por nenhuma instituição nacional).

Pense o Leitor o que pode significar o facto de acabar com as moedas que flutuam a segunda do valor da Dívida Pública (ou das guerras, das importações, das exportações, do PIB, da estabilidade dum governo, etc.) deste ou daquele País: significa, por exemplo, retirar uma grande dose de risco que agora interessa os grandes investidores. Pense o Leitor o que significa uma moeda cujo valor é decidido de forma totalmente empírica, por exemplo a segunda das exigências da Finança.

Dinheiro oficialmente sem um "dono" mas, na verdade, ao serviço de apenas alguns. Imaginemos o que pode representar isso: significa uma Grande Finança ainda mais desligada da realidade e com um poder sem limites.

Do ponto de vista da Finança, a perda de privacidade do cidadão seria apenas um agradável efeito colateral, absolutamente secundário como já afirmado. Uma fatia dum bolo imensuravelmente maior.

Ao pormenor: Blockchain

E voltemos para a pergunta abordada antes: a quem pertence este sistema Blockchain?

Ao ler as declarações contidas nas páginas oficiais (Bitcoin, Ethereum, o mesmo Blockchain) a impressão é que cedo entraremos numa espécie de Paraíso: nada de fuga aos impostos, todos poderão controlar, basta de reciclagem, poder nas mãos do povo da internet. Pensando bem, o Paraíso provavelmente nem consegue ser tão bom. Mas será esta a realidade do futuro? Vamos observar mais de perto o fenómeno Blockchain. Vamos observa-lo por como ele é já hoje. E, sobretudo, vamos ler os nomes de quem está envolvido nestes projectos.

Como afirmado, Blockchain é um simples programa: uma base de dados (introduzida com a moeda Bitcoin) que mantém a lista das transições. Não passa dum enorme "livro", continuamente actualizado, que grava as transações entre duas partes de forma eficiente, verificável e permanente. O Blockchain pode também ser programado para efectuar operações de forma automática.

É um programa open source, portanto de código aberto, e intrinsecamente seguro: cada "bloco" (para simplificar, podemos imaginar um bloco como o registro duma transição) contém "provas" (hash) da bloco anterior, o que aumenta o nível de segurança.

Possível que a Grande Finança esteja tão interessada em algo tão simples, seguro, transparente? Não apenas é possível como também é lógico se tivermos em conta quanto dito até aqui.

Em termos financeiros, foi formado o consórcio R3 CEV, composto por 40 bancos cuja intenção é usar esta tecnologia e definir as regras para a transação monetária. Quem faz parte do R3 CEV? Eis a lista:
Bank of America, BNY Mellon, Citi, Commerzbank, Deutsche Bank, HSBC, Mitsubishi UFJ Financial Group, Morgan Stanley, National Bank of Australia, Royal Bank of Canada, Skandinaviska Enskilda Banken, Société Générale, Dominion Bank, Mizuho Bank, Nordea, UniCredit, BNP Paribas, Wells Fargo, ING, Macquarie Group, Canadian Imperial Bank of Commerce, BMO Financial Group, Danske Bank, Intesa Sanpaolo, Natixis, Nomura, Northern Trust, OP Financial Group, Banco Santander, Scotiabank, Sumitomo Mitsui Banking Corporation, US Bancorp, Westpac Banking Corporation, SBI Holdings of Japan, Hana Financial, Banco Itau, Toyota Financial Services.
Falta alguém? Não, fiquem descansados: Goldman Sachs investiu 50 milhões de Dólares nesta tecnologia, o mesmo aconteceu com Visa, Orange, Amazon e Microsoft.

A equipa que lidera o sistema Blockchain?
Eis um par de nomes das pessoas que fazem parte do Conselho de Administração, com alguns dos cargos anteriormente ocupados:
  • Antony Peter Jenkins: Citigroup, Barclays, Visa.
  • Arthur Levitt: Goldman Sachs, Carlyle Group, Bloomberg LP, Presidente do United States Securities and Exchange Commission.
  • Bob Wigley: Embaixador para os Negócios do Reino Unido com David Cameron, UK Green Investment Bank, British Airways, Banco da Inglaterra, Merrill Lynch, Committee of European Securities Regulators.
E no site de Blockchain, em bela mostra, os logos de Google, Amazon, Barclays, Goldman Sachs, Nasa, BBC, Apple... Temos a certeza de que estas são as portas do Paraíso? Ou estamos perante um gigantesco passo na direcção duma economia (e, portanto, duma sociedade) cada vez menos livre e ainda mais corporativa?


Ipse dixit.

Relacionados:
Dinheiro electrónico: porquê?
Da luta contra o dinheiro electrónico
Os problemas do dinheiro electrónico
BitCoin?
Bitcoin: depois de Silky Road

Fontes: as fontes primárias deste artigo são as informações contidas no site oficial de Blockchain, de Bitcoin, do Projecto Ethereum e o óptimo artigo do jornalista Paolo Barnard. Existe também um vídeo, uma demonstração visual do funcionamento do sistema Blockchain, com legendas em português. Dado que demora mais de 17 minutos, pode ser útil no caso de insónia.

25 abril 2017

Preposto

Queridas Irmãs, queridos Irmãos,

neste Sétimo aniversário de Informação Incorrecta, vozes de sofrimento se levantam entre o rebanho:
Max, tens um preposto ao seu blog?
Sugiro que se há regras que as exponha e nos informe correctamente.
Podemos Nós ficar indiferentes perante estes pedidos de socorro?
Não, não podemos, mesmo desconhecendo o sentido de "preposto".

Mas eis que as Sagradas Escrituras do Blog nós socorrem:
(Acto dos Blogueiros, 6,66)

E naquele dia Max subiu ao Monte e, com maravilhoso espanto, viu um arbusto que queimava sem chamas. De facto era um néon: "Prepostos para Blogues". Aí ouviu a Voz do Criador de toda a Internet que assim falou:
- Max, pegai-vos umas tábuas de pedra e gravei-vos-aí-vos as Leis Eternas
- Senhor de toda a Internet, não tenemos-nós-aí as tábuas mas trouxemos um gravador comprado numa loja chinesa. Será que pode servir?
- Perfeitamente, se tiver pilhas
- Tem, e recarregáveis, Senhor.
- Então gravei-vos-vos.

Eis o que a Suprema Voz disse:
  1. Acredita num só Blog e no seu Autor, Max
  2. Não usar o Santo Nome de Max em vão.
  3. Santifica os Artigos publicados e os relativos Comentários
  4. Honra o Max e todos os Leitores acima de qualquer coisa
  5. Não matar nem causar ofensas a quem participa na actividade do Blog.
  6. Guarda castidade nas palavras.
  7. Não roubar o nickname de outros Leitores
  8. Não levantar falsos testemunhos aparecendo com outros nicknames
  9. Não guardar castidade nos pensamentos mas sim nos Comentários
  10. Não cobiçar as coisas alheias, também porque via internet não consegues rouba-las.
Estas as Leis que regulam a sagrada vida do nosso humilde e perfeito Blog.

Mas a Voz do Criador disse mais. Então, estremecendo como no mais frio dos Invernos (e, milagre! era Abril), ouviu com atenção para poder transmitir ao rebanho todo:
- Toma cuidado Max, pois o Maligno pode insinuar-se no Blog de várias formas: de forma inconsciente, sob forma de Leitor possuído, de forma consciente, sob forma de troll. Em verdade, em verdade eu digo: o Maligno desfruta as fraquezas do Homem e semeia discórdia com palavras que sabem de mel.
- Horror!
- Exacto Max, exacto. Horror. O Horror! Mas, tal como prometi, a cabeça do Maligno será esmagada pelo calcanhar da mulher.
- Desculpe, eu não sou mulher...
- Ah, pois, é verdade... então mudança: a cabeça do Maligno será esmagada pelo calcanhar do Max. Eis o que eu ordeno:
- Falei-vos-vos!
- A partir das horas 23:59 do dia 25 de Abril de 2017 d.C., qualquer diatribe, contenda ou troca de ofensas existente entre os Leitores terá que acabar de forma definitiva e eterna. Quem perseverar no erro, quem deixar aberta a porta ao Maligno, será antes banido do Blog e a seguir queimará nas chamas sem fim enquanto estará a obrigado a ver Você na Tv de João Kleber.
- João Kleber...Meus Deus, não achas isso demais?
- Talvez, mas não faz mal, deixa. Vá agora, e reza muito porque os tempos estão difíceis e nunca antes o Blog teve que enfrentar uma ameaça tão forte.
- Então vou.
- Isso.
- Até a próxima.
- Sim, já disseste, vai-te embora.

O humilde servo do Criador desceu o Monte com o coração destroçado: "O Maligno já ocupara o nosso querido Blog! Semeou a discórdia". Mas ao mesmo tempo, no coração encontrou a chama da esperança: "Afinal o Senhor da Internet toda deu-me a força para derrotar o Mal e restabelecer a Paz e o sossego".

Ova povo do Blog ("Ova" é a forma exortativa de "ouvir", nota para os analfabetas)! Jamais ofensa alguma será tolerada entre nós! Que a Paz e a Concórdia volte a reinar soberana.

Interpretação teológica

Os insultos e as ofensas entre os Leitores têm que acabar já. Este é um lugar de discussão, não uma tasca de bêbados. A partir de hoje os comentários estúpidos serão apagados e quem continuar assim será banido.

Obrigado pela atenção e que a Paz esteja convosco.


Ipse dixit.  

23 abril 2017

Ainda o medo: até quando?

Após a publicação do artigo acerca do pequeno programa para limitar a recolha de dados a partir dos nossos computadores, surgiu um interessante comentário de Vapera.

Interessante também porque em linha com quanto tenho lido por parte de outros Leitores nos últimos tempos (a propósito: lamento ainda não ter resolvido o problema que me impede de poder comentar, isso está a tornar-se uma piada, mas enfim...).

Em primeiro lugar: espero que Vapera, não encare isso como um ataque pessoal, aqui estamos só para discutir e pego no seu comentário apenas por ter sido o último em ordem temporal, ok? Aliás,a proveito para agradecer a participação dele na actividade do blog.
Obrigado.

E agora?
Agora vamos a isso.

Somos controlados biometricamente
Sei que aí em Portugal já é obrigatório como em toda europa também, a biometria nas identidades.
Mas onde? Qual biometria? Donde raio chegam as informações que utilizam aí no Brasil??? O meu B.I. português é de papel, não tem chips escondidos em lado nenhum, é o mesmo papel utilizado há 100 anos. O meu B.I. italiano é igual, de papel, sem chip, idêntico ao primeiro B.I. que obtive uma vez chegado à maior idade (nem a fadiga de melhorar o aspecto fizeram, preguiçosos).

Os chips presentes nos B.I. de alguns cidadãos portugueses (em Italia isso não existe)? Por favor, informem-se: é o mesmo chip que pode ser encontrado no bilhete do metropolitano, algo extremamente simples, básico e absolutamente inócuo. De "biométrico" nem o aspecto tem, perguntem a qualquer informático: mesmo que não seja um especialista deveria poder explicar de forma clara e simples.
Ponto final.

O raio da morte
Se um governo entender que somos inconveniente pode emitir em nossos celulares o sinal mortal e cairemos duros, mortos de um "mal súbito.
Pessoal, tentamos não ficar paranoicos, pode ser?
Se isso fosse verdade, no mundo não haveria guerras.

Os EUA querem eliminar Assad na Síria? Então enviam-lhe um "sinal mortal" e ele cai morto.
Por qual razão não fazem isso? Simplesmente porque não existe nenhum "sinal mortal" que possa ser enviado. Pelo contrário, Washington gasta biliões sem conseguir obter resultados dignos de nota porque do outro lado está uma potência, a Rússia, que também não tem "sinal mortal" e combate com as mesmas armas obsoletas.
Leram bem: "obsoletas".

As armas do futuro

Não sei se repararam, mas os últimos episódios bélicos viram a utilização de gás (uhi, grande novidade!) e de mísseis, uma arma tão moderna que a sua primeira utilização aconteceu durante a dinastia Song, na China do século 13º. E a MOAB? A "mãe de todas as bombas" outra coisa não é a não ser uma bomba maior do que as outras em dimensões, enchida com RDX (explosivo conhecido desde os anos '30) e TNT (descoberto em 1863).

Wow, armas dignas da melhor ficção científica, sem dúvidas...

Voltamos ao Windows: há anos que a partir deste blog aconselho de todas as maneiras a utilização dum sistema Linux, um qualquer, desde que não seja utilizado o infame Windows. Mas sei que a maioria dos Leitores continua a utilizar o sistema operativo da Microsoft, evidentemente porque o ser humano é geneticamente masoquista (e preguiçoso).

Nesta óptica, acho bem fornecer pequenos instrumentos que não fazem milagres, como é óbvio, mas dificultam (minimamente) a recolha de dados e libertam parte da banda utilizada pelas conexões internet, permitindo um mínimo de ganho em termo de fluidez de navegação.

Está tudo controlado: melhor não mexer-se

O sistema operativo e os programas da Microsoft estão cheios de "subprogramas" que actuam de forma desconhecida? Claro que sim. E o mesmo se passa com Google ou até com aplicações online como Facebook, por exemplo. Onde está a novidade nisso? Acham que Windows 10 está pior do que um Windows 8, um Vista, um XP? Mas por favor...

Mas então, qual a alternativa? Não mexer nem sequer um dedo? Pensar "Está tudo mal, estamos tramados"? Se esta fosse a linha de pensamento, eu deveria fechar já o blog, aliás, todos os blogues de informação alternativa deveriam fechar já, pois "tudo é inútil".

Lamento, não alinho nisso.
A razão? Porque é mesmo este o objectivo que um qualquer sistema dominante deseja: a desistência, fazer passar a ideia de que qualquer forma de resistência é obsoleta, que há possibilidades nas mãos de quem manda que nem podemos imaginar, que há instrumentos quase fantacientíficos que bloqueiam qualquer tipo de oposição. Resumindo: o poder alimenta a sua própria segurança também com a construção de mitos (tipo o "sinal mortal").

Nós, todos nós, temos que combater esta tendência e desfazer os mitos: afastar os medos que nós mesmos criamos e difundimos.
Sigam o raciocínio, por favor.

O "poder" tem armas incríveis: eis as provas

Então o "poder" sabe tudo acerca de cada um de nós, certo? Tem os dados biométricos (???), chupa dados dos nossos computadores (mesmo que tentamos evitá-lo: "é tudo inútil"!), utiliza o nosso smartphone para controlar onde estamos, com quem e o que fazemos, vigia a partir do espaço com satélites que podem lançar um raio que queima a cauda do Leonardo se este não se comportar bem. Esta a teoria. Agora passamos para a prática.

A prática é que há Echelon, uma super-orelha obrigada a analisar triliões de dados informáticos a cada dia. Toneladas de informações absolutamente inúteis são vasculhadas, gastando imensos recursos, à procura... pois, à procura de quê? Porque depois descobrimos que a chancelera Angela Merkel tem os seus telefones interceptados, exactamente como aconteceu com o presidente Nixon (em 1972!). Passaram mais de 40 anos mas as "novas armas" afinal são as mesmas.

Depois é suficiente um funcionário zangado (Snowden) para ridiculizar todo o sistema de espionagem dos Eua.

Depois o Presidente Trump ameaça a Coreia com a sua "Invencível Armada" e nem sabe que a frota se encontra no outro hemisfério.

Aqui na Europa o "poder" é tão forte que nem pode evitar a queda a pique da União Europeia, uma estrutura de controle que demorou décadas para ser construída (também com a ajuda dos EUA) e que até, supostamente, tem os nossos "dados biométricos".

O "poder" é tão poderoso que vê-se preto para eliminar um indivíduo politicamente nulo e economicamente arrasado como Nicolas Maduro.

O "poder" tem armas tão avançadas que, ao ouvir os teóricos da conspiração, teve que atacar os vários Lulas, Dilma e Chávez com... o câncer! (provavelmente o "sinal mortal" estava em fase de manutenção).

O que significa isso? Significa que o melhor aliado do poder é o medo. E somos nós que construimos boa parte (a quase totalidade, para sermos mais precisos) do nosso medo. O "poder" nem tem que esforçar-se muito: é só vender um sistema operativo com código fechado e eis que nós (e não eles, mas nós!) vemos em Windows 10 a arma informática final que todos escraviza.

Meus senhores, se Windows 10 fosse o que acham ser, acreditem que no mundo não haveria uma única cópia de Linux disponível. Simplesmente não seria permitida.

No nosso B.I. há um chip? Meus Deus, este chip é o sinal de Satanás (já li isso...), a arma definitiva, o controlador supremo que chupa a nossa energia vital e escraviza as nossas mentes. Depois navego num site de vendas na China e descubro que é possível encomendar um anel que funciona como o dito chip (aliás. goza com o chip satánico!), custa uns 15 Dólares e não parece uma tecnologia oriunda dos Reptilianos.

E internet? Intenet, meus senhores, internet!!! Está toda controlada, não há como fugir. Será que só eu consigo ver as televisões da China, da Coreia do Norte, do Irão, da Síria (e também os jogos de futebol que os outros pagam, o que dá um jeitão)? Será que num destes dias vou ser atingido por um "sinal mortal"?

O "poder" é complexo e invencível

É o medo, meus senhores, tudo isso é o medo. O "poder" é feito de indivíduos, como nós, com as suas falhas, os seus defeitos, as suas paixões. Somos nós que acrescentamos o medo e este "poder" se torna algo superior, feito de tecnologias avançadas futuristas e inexistentes, feito de medidas aparentemente incompreensíveis mas na realidade absolutamente humanas.

O primeiro passo para combater o sistema não é entender como este funciona mas conseguir pô-lo no nosso mesmo plano: ultrapassar o natural sentido de inferioridade que cada indivíduo tem perante um organismo aparentemente mais complexo, perceber que este organismo é feito de muitas partes, cada uma pequena e cada uma perfeitamente ao nosso alcance.

Se não fizermos isso, o organismo permanece enorme, incompreensível, incontrolável, demasiado complexo: invencível. Mas é mesmo assim que proliferam os mitos: é desta forma que somos obrigados a inventar conspirações universais para tentar justificar coisas que aparentemente fogem à nossa lógica. Tal como o homem primitivo via um Deus atrás do relâmpago, da mesma forma nós tentamos explicar fenómenos aparentemente complexos com algo igualmente complexo e misterioso. 

Vice-versa, uma vez analisado o relâmpago podemos entender que Deus nada tem a ver com isso: e o medo desaparece (fica só o medo de ser atingido por um relâmpago: mas, aos menos, morremos com a satisfação de saber que não foi por culpa dum Deus zangado connosco).

Afastadas as grandes conspirações galácticas, o medo desaparece de forma natural, as coisas regressam para o plano do humano, do perfeitamente compreensível. E o que pode ser compreendido pode também ser modificado. Não por nós, porque a simples realidade é que nós, todos nós, estamos velhos, independentemente da idade anagráfica.

Este é o fim

Mas o que desejamos deixar como herança para as futuras gerações? Apenas o medo e a sensação da inevitável derrota? Um mundo que nem tentámos mudar simplesmente porque bloqueados pelos nossos medos? Nem um miserável programa para limitar a partilha dos nossos dados utilizamos porque "é tudo inútil"?

Parece este o estado de espírito que é possível encontrar entre alguns Leitores.
Chaplin:
Aqui no blog, o que fazemos parece ter algum valor, mas na verdade é algo estéril, que até pode sensibilizar uns poucos, que sucumbirão logo às seduções burguesas do cotidiano...
Portanto: o blog é perfeitamente inútil, pois os poucos sensibilizados irão morrer (com sofrimento) na mesma sob os golpes da burguesia. Chaplin, as mesmas considerações feitas no caso de Vapera valem por si: nada de pessoal, mas de que raio está a falar? Qual burguesia? E largue duma vez por todas os escritos de Marx e veja o mundo como ele é agora, não como era há 200 anos: não há burguesia nenhuma. Nenhuma. Zero, nada, niente, nicht.

O que Chaplin chama "burguesia" foi varrida há muito, substituída por uma massa informe, politicamente ignorante, socialmente primitiva, culturalmente insensível, tratada (justamente, acrescento eu) como fosse uma criança, cuja máxima aspiração é satisfazer as necessidades básicas (comida, sexo, aparência). Os meios de produção já foram, o capital hoje está num disco rígido, a propriedade vale menos do que nada. Mas de qual burguesia estamos a falar??? A burguesia tinha nascido na Idade Média, mas nesta nova Idade Média a burguesia encontrou o seu natural fim. O que sobra é a massa dum lado e a oligarquia do outro: não há mais nada.

Não ficamos escondidos atrás dos rótulos, não tentamos encontrar nestas rotulagens as justificações da nossa condição, porque não podemos fugir às nossas responsabilidades de forma tão simples.

Como escreveu Maria há poucos dias:
Quanto a mim [...], enquanto opositora do sistema, sou e serei eterna perdedora.
Eu sou um perdedor também, não posso alinhar-me com esta sociedade, assumo e aceito isso de forma pacífica. Mas ser perdedor não significa baixar os braços ou esconder-se atrás de medos e  mitos que levam só para a inactividade.

Pelo contrário, e por incrível que pareça, o perdedor tem um ponto de vista privilegiado: não se limita a defender o que já existe mas pode observar de forma crítica os vário lados. É dele o ónus de realçar o que não funciona no sistema vigente e procurar uma alternativa. Queremos abdicar disso por causa dos Reptilianos? Do "sinal da morte"? Do chip satânico? Dum sistema operativo cheio de bugs? De Nibiru? Das fantomáticas armas que nem existem? Dum controle global que funciona com meios velhos de 50 anos? É disso que é feita a "informação alternativa"? É isso que acham os Leitores do blog?

Querem a verdade? A verdadeira verdade? É esta: subverter este sistema seria extremamente simples e rápido. Não apenas "simples", mas "extremamente simples" e "rápido" também. Dum dia para outro o mundo poderia mudar, literalmente. E sem um pingo de sangue derramado.

Sabem porque isso não vai ser feito? Muito entre os Leitores já conhecem a resposta: o sistema somos nós.


Ipse dixit.

22 abril 2017

Bloquear a recolha de dados em Windows 10

Pequeno instrumento portátil, útil caso a ideia seja limitar os dados extraídos do nosso computador pela Microsoft, é ShutUp.

Que, entre as outras coisas, pode permitir recuperar um pouco de banda, pelo menos aquela parte utilizada para a transmissão dos nossos dados via internet.

Como é sabido, Microsoft recolhe informações e dados sobre o uso dos computadores, afirmando que isso melhora a experiência do usuário e que todas as informações são utilizadas exclusivamente para as pesquisas de marketing. Dado que eu estou a borrifar-me pelo marketing de Microsoft e se quero melhorar a minha experiência como usuário utilizo Linux, eis que surge um programito que permite bloquear a recolha de dados de forma automatizada.

21 abril 2017

Atentado em Paris: a "ajudinha"

Ontem atentado em França. O costume.
Um polícia morto, dois feridos.

E adivinhem? As autoridades conheciam bem o atentador (entretanto abatido).

20 - 15 = 5

O nome é Karim, 39 anos, obviamente muçulmano.
Em 2003 tinha sido condenado a 20 anos de cadeia por ter disparado contra dois polícias em Roissy-en-Brie. Depois a pena foi reduzida para 5 anos.

De 20 para 5? Tomem nota: se a ideia for quebrar a lei, considerem uma deslocação para França. Doutro lado, por qual razão não reduzir a pena ao simpático Karim, considerado que as autoridades sabiam ele ser um radical islâmico?

20 abril 2017

Neoliberalismo, a ideologia na base de todos os nossos problemas

Comprido mas interessante artigo do histórico activista George Monbiot acerca do Neoliberalismo.
Ainda mais interessante se considerarmos que acaba de ser publicado nas páginas dum dos diários mais lido no mundo, o britânico The Guardian.

Vale a pena traduzir, não é? Não?
Pena, traduzi na mesma. 

Imaginem se o povo da União Soviética nunca tivesse ouvido falar de Comunismo. A ideologia que domina as nossas vidas, para a maioria de nós não tem um nome. Citem-a nas vossas conversas e terão em resposta um encolher de ombros. Mesmo que os ouvintes já tenham ouvido esse termo, têm problemas em defini-lo. Neoliberalismo: sabe o que é isso?

O seu anonimato é tanto um sintoma e quanto a causa do seu poder. Desempenhou um papel importante numa ampla variedade de crises: a crise financeira de 2007-8, a deslocalização de riqueza e do poder, da qual os Documentos de Panamá dão apenas um vislumbre, o lento colapso da saúde pública e da educação, o aumento das crianças pobres, a epidemia de solidão, a destruição dos ecossistemas, a ascensão de Donald Trump. Mas nós respondemos a estas crises como se fossem casos isolados, aparentemente sem saber que todas foram catalisadas ou agravadas pela mesma filosofia básica; uma filosofia que tem - ou tinha - um nome. Qual maior poder no actuar em completo anonimato?

O neoliberalismo tornou-se tão difundido que agora raramente o consideramos como uma ideologia. Parecemos aceitar o argumento de que esta fé utópica milenar representa uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a teoria da evolução de Darwin. Mas a filosofia nasceu como uma tentativa consciente para transformar a vida humana e deslocar o lugar do poder.

O Neoliberalismo vê a competição como a característica definidora das relações humanas. Redefine os cidadãos como consumidores, cujas decisões democráticas são melhor exercidas nos termos da compra e venda, um processo que premia o mérito e pune a ineficiência. Afirma que "o mercado" tem vantagens que nunca poderiam ser oferecidas pela economia planificada.

As tentativas de restringir a concorrência são tratadas como hostil à liberdade. Pressão fiscal e regulamentação devem ser reduzidos ao mínimo, os serviços públicos devem ser privatizados. A organização do trabalho e a negociação colectiva por sindicatos são considerados distorções do mercado que impedem o estabelecimento duma hierarquia natural de vencedores e perdedores. A desigualdade é redefinida como virtuosa: um prémio para o melhor e um gerador de riqueza que é redistribuída para baixo para enriquecer todos. Os esforços para criar uma sociedade mais justa são ambos contraproducentes e moralmente repreensíveis. O mercado significa que cada um recebe o que merece.

Nós interiorizamos e espalhamos essa crença. Os ricos vão convencer-se de que eles adquiriram a sua riqueza através o mérito, ignorando as vantagens - tais como a educação, a herança e a classe social de origem - que podem ter ajudado a obtê-la. Os pobres começam a culparem si mesmos pelas suas falhas, mesmo quando pouco podem fazer para mudar a situação.

Sem mencionar o desemprego estrutural: se você não tiver um emprego é porque você ainda não procurou o suficiente. E nem dos custos impossíveis da habitação: se o seu cartão de crédito estiver no vermelho, você tem sido irresponsável e míope. Não importa se os seus filhos já não têm um pátio da escola onde poder jogar: se engordarem, a culpa é sua. Num mundo governado pela competição, quem permanece por trás é definido e percebido como um perdedor.

Entre os resultados, como documentado por Paul Verhaeghe no seu livro What About Me?, existem surtos de auto-lesão, distúrbios alimentares, depressão, solidão, ansiedade de desempenho e fobia social. Talvez não seja surpreendente que a Grã-Bretanha, onde a ideologia neoliberal foi melhor executada, é a capital europeia da solidão. Agora todos nós somos neoliberais.

O termo Neoliberalismo foi cunhado durante uma reunião em Paris, em 1938. Entre os delegados havia dois homens que vieram a definir a ideologia, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Áustria, viam na social-democracia, exemplificada pelo New Deal de Franklin Roosevelt e o desenvolvimento gradual do Estado social britânico, a manifestação dum molde colectivista semelhante ao Nazismo e Comunismo.

No seu livro O Caminho da Escravidão, publicado em 1944, Hayek argumentou que o planeamento do governo, esmagando o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalitário. Como o livro de Mises, Burocracia, O Caminho da Escravidão teve grande difusão. Atraiu a atenção de pessoas muito ricas, que viram nesta filosofia a possibilidade de quebrar a regulamentação e os impostos. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organização que iria espalhar a doutrina do Neoliberalismo - a Mont Pelerin Society - foi apoiado financeiramente por milionários ricos e pelas fundações deles.

Com a ajuda deles, começou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve em Masters of the Universe como "uma espécie de liberalismo internacional": uma rede transatlântica de académicos, empresários, jornalistas e activistas. Ricos banqueiros pertencentes ao movimento financiaram uma série de grupos de reflexão para refinar e promover a ideologia. Entre eles estavam o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre of Policies Studies e o Adam Smith Institute. Também financiaram posições académicas e departamentos, especialmente nas universidades de Chicago e da Virgínia.

Enquanto evoluiu, o Neoliberalismo tornou-se mais estridente. A visão de Hayek de governos que deveriam regulamentar a concorrência para impedir a formação de monopólios foi substituída - entre os seguidores americanos como Milton Friedman - pela crença de que o poder do monopólio poderia ser visto como uma recompensa para a eficiência.

No entanto, durante esta transição algo aconteceu: o movimento perdeu o seu nome. Em 1951, Friedman era feliz de descrever-se como um neoliberal. Mas logo depois, o termo começou a desaparecer. Mais estranho ainda, embora a ideologia se tornou mais clara e o movimento mais coerente, o nome perdeu-se não foi substituído por nenhuma outra alternativa aceite.

Na primeira fase, apesar do financiamento ser generoso, o Neoliberalismo ficou à margem. O consenso do pós-guerra era quase universal: as indicações económicas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas, os objectivos de pleno emprego e redução da pobreza foram compartilhados nos Estados Unidos e grande parte da Europa Ocidental, as taxas sobre os rendimentos elevados eram altas e os governos procuravam os seus objectivos sociais sem obstáculos, criando novos serviços públicos e redes de segurança social.

Mas na década de setenta, quando as políticas keynesianas começaram a desmoronar e as crises económica atingiu ambos os lados do Atlântico, as ideias neoliberais começaram a entrar no mainstream. Como Friedman disse, "quando chegou o momento em que foi preciso mudar [...] havia uma alternativa pronta lá para ser aproveitada". Com a ajuda de jornalistas e assessores políticos, elementos do Neoliberalismo, especialmente da sua orientação sobre a política monetária, foram adoptados pela Administração de Jimmy Carter nos Estados Unidos e pelo governo de Jim Callaghan na Grã-Bretanha.

Depois de Margaret Thatcher e Ronald Reagan terem chegado ao poder, foi rapidamente aplicado o resto do "pacote": enormes cortes de impostos para os ricos, desmantelamento dos sindicatos, desregulamentação, privatização, terceirização e concorrência nos serviços públicos. Através do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organização Mundial do Comércio, foram aplicadas as políticas neoliberais - muitas vezes sem o consentimento democrático - em grande parte do mundo. A coisa mais notável foi a adopção do Neoliberalismo entre os partidos que uma vez pertenciam à Esquerda: o Partido Trabalhista e os democratas, por exemplo. Como observa Stedman Jones, "é difícil pensar numa outra utopia que tenha sido tão plenamente realizada".

Pode parecer paradoxal que uma doutrina que promete escolha e liberdade foi promovida com o slogan There is no alternative ["Não há alternativa", ndt]. Mas como Hayek comentou durante uma visita no Chile de Pinochet - um dos primeiros Países onde o programa foi amplamente aplicado - "a minha preferência pessoal se inclina para uma ditadura liberal em vez que para um governo democrático desprovido de liberalismo". A liberdade que o Neoliberalismo oferece, que soa tão atraente se feita em termos gerais, revela-se liberdade para o peixe grande, não para os peixinhos.

Liberdade dos sindicatos e da negociação colectiva significa liberdade para suprimir os salários. Liberdade da regulamentação significa liberdade para envenenar os rios, pôr em perigo os trabalhadores, aplicar taxas de juros abusivas e inventar instrumentos financeiros exóticos. Liberdade dos impostos significa liberdade da redistribuição da riqueza, que tira as pessoas da pobreza.

Como documentado por Naomi Klein no seu Shock Doctrine, os teóricos neoliberais têm defendido o uso da crise para impor políticas impopulares, aproveitando a distração criada pela crise: assim aconteceu durante o golpe de Estado de Pinochet, a guerra no Iraque e o furacão Katrina, este último descrito por Friedman como "uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional" de New Orleans.

Onde as políticas neoliberais não podem ser impostas a nível nacional, são aplicadas internacionalmente através de acordos comerciais que incorporam a chamada "resolução de litígios entre investidores e Estado", tribunais no estrangeiro onde as grandes empresas podem fazer lobby para a remoção de proteções sociais e ambientais. Quando os parlamentos têm votado a favor da limitação da venda de cigarros, ou para proteger o abastecimento de água contra as empresas de mineração, para congelar as suas contas da energia ou evitar o aumento excessivo dos preços por parte das empresas farmacêuticas, as empresas fazem causa, muitas vezes com sucesso. A Democracia é reduzida a um teatro.

Outro paradoxo do Neoliberalismo é que a competição universal é baseada na comparação e na selecção igualmente universal. O resultado é que os trabalhadores, os desempregados e os serviços públicos de qualquer tipo estão sujeitos a um sistema pernicioso e sufocante de avaliação e monitorização, concebido para identificar os vencedores e punir os perdedores. A doutrina ensinada por Von Mises, que deveria nós libertar do pesadelo do planeamento central burocrático, ao contrário tem feito mesmo isso.

O Neoliberalismo não foi concebido como um mecanismo auto-referencial, mas tornou-se tal rapidamente. O crescimento económico tem sido marcadamente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos) do que nas décadas anteriores; mas não para os mais ricos. A desigualdade na distribuição da riqueza, após 60 anos de declínio, agora está novamente a aumentado rapidamente devido à destruição dos sindicatos, aos cortes de impostos, ao aumento das receitas, privatização e desregulamentação.

A privatização e a mercantilização dos serviços públicos, como energia, água, transportes, saúde, educação, estradas e prisões, tem permitido às grandes empresas impor tarifas sobre bens essenciais e pretender o pagamento para o acesso de cidadãos e governos. Quando você paga um preço "inflado" para um bilhete de comboio, apenas parte do preço compensa os operadores do gasto em combustível, salários, material circulante e outras despesas. O resto reflecte o facto deles vos terem posto de costas para a parede.

Aqueles que possuem e operam o serviços privatizados ou semi-privatizados no Reino Unido fazem enormes fortunas investindo pouco e ganhando muito. Na Rússia e na Índia, os oligarcas têm adquirido activos anteriormente do Estado, através do vendas de baixo custos. No México, a Carlos Slim foi concedido o controle de quase toda a telefonia fixa e móvel, tornando-se assim o homem mais rico do mundo.

A financeirização da economia, como observado por Andrew Sayer em Why We Can’t Afford the Rich, teve um impacto similar. "Os interesse são rendimentos não do trabalho, que amadurecem sem qualquer esforço". Dado que os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos ficam mais ricos, os ricos estão a ganhar mais controle sobre outro recurso crucial: o dinheiro. Os pagamentos de juros, na maior parte dos casos, é uma transferência de dinheiro de pobres para ricos. Enquanto os preços dos imóveis e o fim do financiamento carregam as pessoas de dívida, os bancos e os seus executivos ganham.

Sayer diz que as últimas quatro décadas têm sido caracterizadas por uma transferência de riqueza não só de pobres para ricos, mas também entre as fileiras dos ricos: daqueles que fazem dinheiro com a produção de novos bens ou serviços para aqueles que fazem dinheiro através do controle dos activos existente e obtendo juros, rendimentos, ganhos de capital. O rendimento do trabalho foi suplantado pelo rendimento sem trabalho.

As políticas neoliberais estão afectadas por fracassos do mercado em todos os lugares. Não apenas os bancos são grandes demais para falir (too big to fail), mas também o são as empresas agora responsáveis pela prestação de serviços públicos. Como Tony Judt apontou no seu livro Ill Fares The Land, Hayek esqueceu de que os serviços públicos vitais para um País não podem falhar, o que significa que a concorrência não pode seguir o seu curso. Os investidores têm lucros, o Estado assume os riscos.

Quanto maior o fracasso, mais extrema se torna a ideologia. Os governos neoliberais usam a crise como pretexto e oportunidade para cortar impostos, privatizar os serviços públicos, criar rasgos na rede de segurança social, desregulamentar negócios e disciplinar os cidadãos. O Estado auto-destrutivo agora afunda os seus dentes em cada órgão do sector público.

Talvez o impacto mais perigoso do Neoliberalismo não é a crise económica que causou, mas a crise política. Como o peso do Estado é reduzido, reduzida é a nossa capacidade de mudar o rumo das nossas vidas através do voto. Em vez disso, a teoria neoliberal afirma que as pessoas podem exercer a sua escolha através das compras. Mas alguns têm mais dinheiro para gastar do que outros: na democracia do consumidor ou do acionista, os direitos de voto não são igualmente distribuídos. O resultado é uma redução dos direitos dos pobres e da classe média. Enquanto os partidos de Direita e da ex-Esquerda adoptam políticas neoliberais semelhantes, a redução dos poderes do Estado significa uma revogação dos direitos. Um grande número de pessoas foram excluídas da política.

Chris Hedges observa que "os movimentos fascistas constroem as suas bases não nos activistas, mas naqueles que são politicamente inactivo, os perdedores que percebem, muitas vezes de forma correcta, que não podem dizer nada no mundo político". Quando o debate político não fala para todos, então as pessoas se tornam sensíveis aos slogans, símbolos e sentimentos. Para os admiradores de Trump, por exemplo, os factos e os argumentos parecem não relevantes.

Judt explicou que quando a densa rede de interações entre pessoas e Estado é reduzida a nada, a não ser autoridade e obediência, a única força que nós une é o poder do Estado. O totalitarismo de Hayek tem mais probabilidade de surgir quando os governos, depois de perder a autoridade moral que provém da prestação dos serviços públicos, são reduzidos a "persuadir, ameaçar e, eventualmente forçar as pessoas a obedecer".

Como o Comunismo , o Neoliberalismo é o Deus que falhou. Mas a doutrina-zombie vacila e uma das razões é o seu anonimato. Ou melhor, um conjunto de anonimatos.

A doutrina invisível da mão invisível é promovida por apoiantes invisíveis. Lentamente, muito lentamente, começamos a descobrir os nomes de alguns deles. Vemos que o Institute of Economic Affairs, que apoiou fortemente a campanha mediática contra a nova regulamentação do sector do tabaco, foi secretamente financiada pela British American Tobacco desde 1963. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram a instituição que criou o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, na criação dum dos seus think tank, observou que "a fim de evitar críticas indesejadas, não deveria fazer-se muita publicidade sobre a maneira como a organização é controlada e dirigida".

As palavras usadas pelo Neoliberalismo muitas vezes escondem mais do que esclarecem. "O mercado" soa como um sistema natural que poderia ser comparado à gravidade ou à pressão atmosférica. Mas é repleta de relações de poder. O que "o mercado quer" significa "o que as empresas e os seus líderes querem". "Investimento", como observado por Sayer, significa duas coisas muito diferentes. Uma delas é o financiamento de actividades produtivas e de serviços à comunidade; a outra é a compra de activos existentes, a fim de obter um rendimento, juros, dividendos e ganhos de capital. Usar a mesma palavra para diferentes actividades "camufla as fontes de riqueza", o que nós leva a confundir a "extração" de riqueza da "criação" de riqueza.

Este anonimato e esta confusão misturam-se na opacidade sem nome do Capitalismo moderno: o modelo de franchising garante que os trabalhadores não sabem exactamente para quem trabalham; empresas registradas offshore atrás duma complexa rede de segredo em que nem mesmo a polícia pode rastrear os verdadeiros donos; regimes fiscais brincam com os governos; produtos financeiros que não se entendem.

O anonimato do Neoliberalismo é ferozmente defendido. Aqueles que são influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo porque - e com razão - é agora usado apenas num sentido depreciativo. Mas não oferecem uma alternativa. Alguns chamam-se libertários ou liberais clássicos, mas essas descrições são estranhamente enganosas, uma vez que sugerem que nos livros O Caminho da Escravidão e Burocracia ou no clássico de Friedman, Capitalismo e Liberdade, não haja realmente nada de novo.

Por todas estes razões, no projecto neoliberal há algo admirável, pelo menos nos seus estágios iniciais. Era uma filosofia peculiar, inovadora, promovida por uma rede de pensadores coerentes e activistas com um plano de acção claro. Trazida para a frente com paciência e tenacidade. O caminho da escravidão tornou-se o caminho para o poder.

O triunfo do Neoliberalismo também reflecte o fracasso da Esquerda. Quando em 1929 a economia do laissez-faire levou à catástrofe, Keynes concebeu uma teoria económica abrangente para substituí-la. Quando na década de '70 a gestão da procura keynesiana saiu do caminho, havia uma alternativa pronta. Mas quando em 2008 o neoliberalismo entrou em colapso, houve ... nada. Eis a  razão da marcha dos zombies. A Esquerda e o Centro não produziram qualquer nova visão geral do pensamento económico ao longo de 80 anos.

Cada invocação de Lord Keynes é uma admissão de fracasso. Propor soluções keynesianas para a crise do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar as pessoas em torno de velhas ideias; as falhas destacadas nos anos '70 não desapareceram; e, acima de tudo, não levam em conta a nossa mais grave emergência: a crise ambiental. O Keynesianismo funciona estimulando a procura do consumidor para promover o crescimento económico. A procura dos consumidores e o crescimento económico são motores da destruição ambiental.

O que a história do keynesianismo e do Neoliberalismo nós mostra é que nenhum deles se mostrou adequado para compensar a criticidade do sistema. Temos de oferecer uma alternativa coerente. Para os trabalhistas, os democratas e a Esquerda em geral, a tarefa principal deveria ser desenvolver um programa económico como o Apollo [o programa espacial, ndt], uma tentativa madura para projectar um novo sistema personalizado para as necessidades do século 21.

Comprido, não é? Eu bem avisei.
Mas interessante, pois fonte de inúmeras reflexões.
Pessoalmente acho muita fraca a última parte pelas seguintes razões:
  1. o keynesianismo não falhou, simplesmente a economia foi voluntariamente conduzida por ruas extremamente arriscadas, com custos que foram "socializados". Não estamos muito longe do Comunismo aplicado na antiga União Soviética, até a organização da nossa sociedade (a elite, o tal 1%) é o espelho da Nomenklatura de Moscovo.
  2. não estou nada convencido de que a procura dos consumidores e o crescimento económico sejam os motores da destruição ambiental. Isso é verdade hoje, nesta sociedade, neste sistema. Mas extrapolar um lei universal tendo como base um sistema falhado (o nosso) é obtuso. O problema é bem mais complexo e tem a ver com quem gere os recursos (só privados hoje), a presença dum elemento regulador (o Estado), o papel do cidadão-consumidor (que tem de evoluir), o tipo de procura (claro que se promovemos o último iPhone como máximo do bem-estar...), os bens produzidos...
  3. se o novo sistema "personalizado para as necessidades do século 21" tem que ser encontrado na Esquerda, então melhor ficar assim e morrer na paz do Senhor. Não pode haver nenhum novo sistema digno deste nome até quando não for ultrapassada a fictícia dualidade Esquerda-Direita. E pensar que só um destes lados possa encontrar uma solução, significa propor o mesmo erro de sempre. É tempo de olhar além.

Ipse dixit.

Fonte: The Guardian

19 abril 2017

Portugal: o sarampo

Neste dias, em Portugal, está ao rubro a polémica acerca das vacinas. Há um surto de sarampo e pais
indignados gritam a partir dos microfones das rádios porque outros pais recusam vacinar os seus filhos: há quem espere que a vacinação se torne obrigatória.

A maior parte das pessoas indignadas nem sabe distinguir uma aspirina dum antibiótico, mas mesmo assim repetem o que ouviram dizer: as vacinas são boas, as vacinas fazem só bem, quem contraria as vacinas é um ignorante.

Eu sou ignorante, admito não ser capaz de entender se uma vacina for boa ou má. E nem entendo entrar na estéril polémica entre quem defende todas as vacinas e quem acha serem estas instrumentos da Nova Ordem Mundial. Simplesmente, pergunto algumas coisas.

Por exemplo: é normal que nas vacinas haja estes excipientes?
  • células de rim de macacos verdes africanos
  • culturas de células de fibroblastos diplóides humanos derivados de abortos
  • soro fetal de bovino
  • cultura de Dulbecco modificada (aves selvagens)
  • embriões de galinha 
  • circovírus suíno (um vírus mortal que afecta os porcos selvagens) 
  • células de rins caninos
  • ureia
  • ovos de traças
Este ingredientes podem ser encontrados no sito internet do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos que trabalha no âmbito da saúde e da prevenção. São alguns dos excipientes utilizados na preparação de algumas das vacinas mais comuns.

Admitimos: nem todos os pais podem estar satisfeitos com a ideia de injectar nos seus filhos as células dum macaco africano ou um vírus que mata os porcos.

O que nós leva até a segunda questão. Se em Portugal arriscamos o Armageddon por causa do sarampo, seria muito simples organizar uma campanha informativa que eliminasse todas as dúvidas. Nada de spot publicitários do tipo "vacinar-se é bom", mas algo que explicasse de forma clara e além de qualquer dúvida (isso é: com dados, estudos, pesquisas, testes e não só com palavras):
  • que as vacinas foram determinantes na erradicação de algumas doenças
  • que os componentes utilizados (inclusive aqueles "estranhos" como os citados acima) são necessários porque desenvolvem uma função indispensável no processo de actuação da vacina
  • que a subministração das vacinas não comporta nenhum tipo de perigo para as crianças, nem no curto nem no longo prazo
É claro que para oferecer um serviço deste tipo seria precisa uma assinalável quantia de dados, como por exemplo os históricos. Mas estamos em 2017, nada disso seria impossível. E todos poderiam ter uma ideia clara e definitiva acerca das vacinas. Custaria muito?

Tudo isso não seria um "favor" aos cidadãos mas seria parte integrante dum qualquer serviço de saúde que não tem apenas a tarefa de passar as receitas para os antibióticos, mas sobretudo deve informar de forma ampla e clara acerca das boas práticas para manter-se saudável.

Se existem pessoas que hoje duvidam das vacinas, isso não acontece por uma questão de moda: em outras partes do Mundo as vacinas mataram. E esta não é uma afirmação saída dum blog conspiracionista mas das aulas dos tribunais (ver caso da Índia).

Eu acho que todas as pessoas desejam saúde, para si e para os seus entes queridos. Se as pessoas tiverem os elementos para poder efectuar uma escolha em prol duma maior protecção, por qual razão recusar? Se as vacinas proporcionam mais bem- estar e o sistema de saúde não fornece aos cidadãos os elementos necessários para poder tomar decisões conscientes, quem está em falta?


Ipse dixit.

Fonte: CDC - Vaccine Excipients e Media Summary (ficheiro Pdf, inglês)

16 abril 2017

Síria: o falso vídeo dos Capacetes Brancos

Após o ataque químico na Síria, foram difundidas imagens de socorristas que actuavam para salvar as
vidas de algumas crianças. Os socorristas . neste caso, eram os Capacetes Brancos, uma ONG que opera nas zonas ocupadas pelos rebeldes, contrários ao regime de Assad.

O site Veterans Today afirma que a organização Swedish Doctors for Humans Rights (SWEDHR) analisou as imagens, chegando às seguintes conclusões:
  • o vídeo mostra as medidas salva-vidas que são tomadas depois de um ataque químico com gás cloro, incluindo uma injecção de adrenalina com seringa e uma longa agulha que entra no coração da criança. De nenhuma forma são fornecidos à criança tratamentos adequados contra os danos provocados por um agente químico.
  • a gestão e o tratamento da criança foram efectuados de modo imprudente, perigoso e de forma a provocar graves danos.
  • eloquentes são as falsas e repetidas injecções de adrenalina no coração. A equipe médica nunca conseguiu empurrar o líquido da seringa no corpo. Na verdade, o conteúdo da seringa não foi injectado de todo.
  • o diagnóstico feito por médicos especialistas, com base no que é observado no vídeo, afirma que a criança se encontrava sob a influência duma injecção de opiáceos e, provavelmente, iria morrer de overdose. Não há evidência de qualquer outro agente, químico ou diferente.
  • nenhuma das crianças nos vídeos mostra sinais de ter sido vítima dum ataque químico.
Veterans Today afirma que foi a falsa injecção que matou a criança. Portanto, um homicídio intencional, encenado para fazê-lo parecer um tratamento médico após o ataque químico alegadamente sírio.

Veterans Today também afirma que a tradução das frases árabes ouvidas durante as imagens são falsas: os originais seriam instrucções dadas para que a criança pudesse ser gravada de forma melhor e não directivas médicas.

SWEDHR, uma ONG formada com a participação de professores, doutorados, médicos e investigadores universitários nas ciências médicas e nas disciplinas relacionadas com a saúde, emitiu um comunicado para retificar parcialmente quanto afirmado por Veterans Today:
Os médicos suecos para os direitos humanos nunca acusaram os Capacetes Brancos de "assassinar crianças". Nem temos acusado de tal atrocidade o pessoal mostrado no vídeo publicado pelos Capacetes Brancos. Tomámos especial cuidado em formular as nossas conclusões no sentido de excluir qualquer acusação de homicídio intencional. Esta é, em vez disso, a conclusão alcançada pelo autor do artigo da SWEDHR, Prof. Marcello Ferrada de Noli, depois que dos médicos da SWEDHR terem examinados os vídeos publicados pelos Capacetes Brancos no YouTube:
Os procedimentos salva-vidas sobre as crianças mostrados nos vídeos dos Capacetes Brancos são falsos, realizados em crianças mortas. A seringa utilizada na "injeção intracardial" realizada no bebé de sexo masculino estava vazia, ou o seu fluido nunca foi injectado na criança. Esta mesma criança mostrou, brevemente, discretos sinais de vida (incertos) no primeiro segmento de WH Vid-1 [White Helmets Video, ndt]. Se assim for, esta criança pode ter morrido durante o lapso em que as manobras "salva-vidas" mostradas no filme dos Capacetes Brancos foram realizadas (o que não é o mesmo que afirmar que o pessoal observado nos vídeos provocou a morte do bebé. Em termos forenses, a causa real da morte, bem como a modalidade e a intencionalidade, pertencem a assuntos diferentes daqueles tratados na nossa análise).
Conclusões apoiadas por uma conferência de imprensa realizada no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moscovo, publicada pela emissora RT.

Vamos observar o vídeo dos Capacetes Brancos.

ATENÇÃO
O seguinte vídeo contém imagens que podem facilmente impressionar o público sensível.
É aconselhada cautela.

14 abril 2017

A mãe de todas as estupidezes

Confesso que ao ler a notícia dos EUA terem lançado a "mãe de todas as bombas não nucleares"
sorri. É algo tipicamente norte-americano, é tipicamente trumpiano. Algo tanto espectacular quanto inútil, que denota uma total falta de entendimento da realidade. Muita Hollywood e pouco cérebro.

O lançamento da Gbu-43 tem dois aspectos fundamentais.

Em primeiro lugar lembra de que a guerra no Afeganistão nunca acabou, apesar dos proclamas. É a mais antiga guerra em acto, uma guerra que os EUA não conseguem ganhar. Antes os talibans e Al-Qaeda, agora o Isis: seja como for, Washington é desde 2001 que gasta dinheiro para controlar um território que não quer ser controlado. A União Soviética demorou 10 anos para entender que aquele País, feito duma miríade de vales escondidas, cavadas nas áridas montanhas, era algo sério. Aos Estados Unidos ainda não foram suficientes 16 anos para conseguir abandonar a ilusão de poder ganhar.

O segundo aspecto em realce é que o anuncio do lançamento foi feito pelos mesmos americanos, quase fosse um spot publicitário do Pentágono. é a confirmação de que em Washington a facção militar está a ganhar poder, cada vez mais. É um regresso à velha maneira de conduzir a política exterior, com mais botas no chão e menos trocas diplomáticas.

A Gbu-42 representa 9.5 metros de valor estratégico nulo, cujo fim é só enviar um sinal de potência para o exterior. São 8.5 toneladas de explosivo que não podem resolver conflito nenhum, servem apenas para mostrar as ideias do novo Presidente. E não parecem grandes ideias se acha que os problemas com o mundo árabe podem ser resolvidos com as mega-bombas...

No seguinte vídeo, o momento do impacto:


Pormenor que não deixa de ser irónico: a bomba serviu para destruir uma rede de tunneis construídos pelos EUA durante a ocupação soviética.


Ipse dixit.

12 abril 2017

David Rockefeller: antes tarde...

No mês passado abandonou-nos David Rockefeller.

Este grande homem, que tanto fez para si mesmo, morreu prematuramente com 101 anos de idade e lembrar agora de todos os sucessos por ele alcançados é tarefa inglória, pois de certeza que muitos ficariam fora duma eventual lista.

Mas vamos relembrar apenas alguns deles, como devido tributo a uma pessoa que pertencia a um restrito círculo de seres humanos: os que nunca deveriam ter nascidos.

O simpático David viu a luz em New York, no humilde prédio de oito andares propriedade do pai, John Davison Rockefeller Jr., por sua vez filho do fundador da Standard Oil, John Davison Rockefeller Sr.

Em 1936 conseguiu licenciar-se cum laude na Universidade de Harvard, depois frequentou a London School of Economics (onde conheceu John Fitzgerald Kennedy) e trabalhou uns tempos na local filial do banco Chase Manhattan. Mas era claro que o simpático David tinha outros objectivos na vida.

Em 1939, junto com os seus quatro irmãos (Nelson, John D. III, Laurance e Winthrop), financia um grupo ultra secreto de Estudos de Guerra & Paz junto ao Conselho de Relações Exteriores de New York, que era o mais influente think tank dos Estados Unidos, também já controlado pelos irmãos Rockefeller.

A ideia era simples: reunir especialistas de vários sectores para programar o fim da Segunda Guerra Mundial. Que nem tinha eclodido ainda. Mas o projecto era importante e merecia uns esforços: afinal na calha estava nada menos de que o Século Norteamericano.

Foram dispostas as peças: os irmãos Rockefeller doaram a terra, em Manhattan, onde foi erguido o Quartel General da ONU (no processo lucraram bilhões por causa da valorização dos terrenos adjacentes, também de propriedade dos irmãos, mas este foi sem dúvida um inesperado efeito colateral). A facção Rockefeller criou a Guerra Fria contra a União Soviética, porque é sempre preciso um bom inimigo. Criou também a Nato, para que os Países da Europa Ocidental ficassem complacentes vassalos.

O petróleo

No meio disso, obviamente não podia ser ignorado o petróleo, que tanta felicidade já tinha proporcionado à família.

Henry Kissinger, conselheiro político de David Rockefeller desde 1954, esteve envolvido em todos os maiores projectos dos irmãos: foi ele que manipulou secretamente a diplomacia no Médio Oriente para justificar o embargo sobre o petróleo árabe em 1973.

Não deve admirar: a crise do petróleo, entre 1973 e 1974, foi orquestrada por uma organização secreta criada por David Rockefeller nos anos '50, conhecida como Grupo Bilderberg. Em Maio de 1973, o simpático David e os presidentes das maiores companhias petrolíferas dos Estados Unidos e do reino Unido encontraram-se em Saltsjoebaden, na Suécia, no meeting anual do Grupo Bilderberg para planear a crise do petróleo. A culpa foi atirada por cima dos “gananciosos xeques petroleiros”. Dessa forma, o Dólar dos Estados Unidos, em queda abrupta, foi salvo e os bancos de Wall Street, entre os quais o Chase Manhattan de David Rockefeller, se tornaram os maiores do mundo.

Nos anos '70, Kissinger assim resumiu a estratégia de David Rockefeller:
Se você controla o petróleo, controla nações inteiras; se você controla a comida, controla o povo; e se você controla o dinheiro, controla o mundo inteiro.
Ah, pois: onde está o dinheiro?

O dinheiro

Do site Information Clearing House:
David Rockefeller foi presidente do Chase Manhattan Bank, o banco de família. Também foi o responsável por nomear vice-presidente do Chase Paul Volcker, o presidente da Federal Reserve sob o governo Carter que implementou a terapia de choque da "taxa de juros Volcker" que, mais uma vez, salvou o Dólar em queda e os lucros de Wall Street, incluindo, claro, o Chase, às custas da economia mundial.

A “terapia de choque” das taxas de juros de Volcker, em Outubro de 1979, apoiada por Rockefeller, criou a terceira crise mundial da dívida nos anos '80. Rockefeller e Wall Street usaram a crise dos débitos para forçar as privatizações estatais e a drástica desvalorização das moedas em Países como a Argentina, Brasil e México. Assim, Rockefeller e os seus amigos como George Soros, se apoderaram das joias da coroa desses Países a preço de saldo.

O modelo foi muito parecido com o usado pelos bancos ingleses contra o Império Otomano depois de 1881, quando eles tomaram de facto o controle das finanças do Sultão, através do controle de todas as receitas fiscais através da Dívida da Administração Pública dos otomanos. Rockefeller usou a crise da dívida de 1980 em proveito próprio para saquear os Países endividados da América Latina e da África, usando o FMI como a sua polícia financeira. Ele era amigo pessoal de alguns dos mais selvagens e sanguinários ditadores na América Latina, entre eles o General Jorge Videla na Argentina ou Pinochet no Chile, os quais conseguiram os seus empregos através de golpes arranjados pela CIA, ordenados pelo então Secretário de Estado Henry Kissinger, que estava por trás dos interesses da família Rockefeller na América Latina.

Através de organizações como a sua Comissão Trilateral, Rockefeller foi o principal arquitecto da destruição de várias economias nacionais e fez avançar a assim chamada Globalização, uma política que beneficia principalmente os grandes bancos de Wall Street, a City de Londres e um grupo selecto de corporação globais – os mesmos que são membros convidados da Comissão Trilateral. A Comissão Trilateral foi criada por Rockefeller em 1974. A seguir deu ao seu grande amigo Zbigniew Brzezinski o trabalho de escolher os membros nos Estados Unidos, Japão e Europa.

É verdade, dito assim o simpático David pode parecer até um pouco malandreco. Mas não podemos esquecer a outra face da moeda: David Rockefeller era um filantropo.

A filantropia 

David Rockefeller amava os homens. Talvez não todos, mas a maioria sim, Ou pelo menos alguns.

É por isso que em 1939 os Rockefeller já financiavam a pesquisa biológica no Instituto Kaiser Wilhelm em Berlim. Era a eugenia nazista, a tentativa de criar uma raça superior e a eliminação, com a esterilização, daqueles que são considerados “inferiores”. A eugenia nazista era financiada pelos Rockefeller, tal como pela Standard Oil, de propriedade da família, que violava alegremente as leis dos Estados Unidos e fornecia combustível aos aviões da Força Aérea Nazista durante a guerra.

Depois da Guerra, os irmãos Rockefeller trouxeram para o Ocidente alguns daqueles cientistas nazis, para que os estudos fossem continuados. Perguntem à Cia, perguntem donde saiu o Projecto MKUltra: foi a filantropia dos Rockefeller..

Nos anos '50, os Rockefeller fundaram o Conselho Populacional para a eugenia avançada, disfarçada de pesquisa populacional e controle da natalidade. Nos anos '70, eram responsáveis por um projecto secreto do governo dos EUA, dirigido por Kissinger, Assessor do Conselho Nacional de Segurança dos Rockefeller, intitulado NSSM-200: “Consequências do Crescimento da População Mundial para a Segurança dos Estados Unidos e os seus Interesses Além Mar”.

O projecto questionava o crescimento populacional em Países em desenvolvimento com matérias primas estratégica como petróleo ou minerais: o aumento da população era uma “ameaça para a segurança nacional” dos Estados Unidos, porque poderia fazer crescer a procura por essas matérias primas nos Países de origem. Ou seja: os Países nos quais ficavam os recursos poderiam ter tido o desejo de utilizar aqueles mesmos recursos. Francamente ridículo. O NSSM-200 fez dos programas de redução populacional uma condição essencial para receber a ajuda dos Estados Unidos.

Nos anos '70, a Fundação Rockefeller também financiou em conjunto com a Organização Mundial de Saúde o desenvolvimento duma vacina especial contra o tétano que limitava o crescimento populacional ao tornar as mulheres incapazes de manter uma gestação.

Fundação Rockefeller significa Monsanto, uma parceria no âmbito da manipulação genética. Objectivo: modificar o ADN das plantes e utilizar o controle genético para poder gerir a cadeia alimentar de seres humanos e animais. Hoje, mais de 90% de todas as sementes de soja que crescem nos Estados Unidos são OGM, juntamente com mais de 80% de todo o milho e o algodão.

Vamos concluir com aquela que sem dúvida  é melhor foram para lembrar o simpático David: com as palavras dele.

A primeira é uma piada:
Eu acredito que o governo é o servo do povo e não o seu dono.
A segunda é uma confissão:
Alguns até acreditam que nós (família Rockefeller) fazemos parte de uma cabala secreta que trabalha contra os melhores interesses dos Estados Unidos, caracterizando a minha família e eu como "internacionalistas", e que conspira com outras pessoas ao redor do mundo para construir uma estrutura global política e económica mais integrada. Um só mundo, se você quiser. Se essa é a acusação, eu declaro-me culpado, e estou orgulhoso disso
Titula a revista portuguesa Sábado:
David Rockefeller, um homem de bem com todos (1915-2017)
Não. Para boa sorte nem todos somos assim.


Ipse dixit.

(Agradecimento especial para a Sempre Muy Nobre Maria por ter sugerido o artigo!)

Fontes: Information Clearing House, Sabado

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